As ovelhas negras da família
Hoje pela manhã estava escutando o episódio com Maria Adelaide Amaral do podcast "Isso não é uma sessão de análise", enquanto soltava vários sorrisinhos.
No podcast, Vera Iaconelli, psicanalista e escrita, conversa com diferentes convidados sobre as suas famílias.
Na família de Maria Adelaide, ela foi a ovelha negra, aquela que rompeu com padrões de violência e conservadorismo. Amo o relato que ela trouxe, contando sobre um episódio em que ela disse ao pai, aos 14 anos, o seguinte: "Eu não vou casar, porque sou a favor do amor livre, vou ter amantes, vou ser escritora e vou morar em Paris ou Nova Iorque." Isso na década de 50, na Mooca, em SP, um bairro que eu não conheço pessoalmente, mas que já escutei muitas histórias através da minha avó.
Maria Adelaide conta sobre sua vida com uma energia e com uma libido de vida com a qual eu me identifico profundamente. Ao mesmo tempo em que também identifico nas suas falas quem foi minha mãe e quem foi minha vó. Mulheres que não cederam às imposições culturais, que viram no estudo uma possibilidade de mudança e que viveram, na medida do possível, seus desejos e ambições.
Obviamente que alguns limites existiram... Por exemplo, minha mãe só foi colocar um total de 37 piercings e brincos na cara (esse é um número real), aos 62 anos. Porque antes disso, sofreria com o julgamento da minha vó. A mesma mulher que rompeu com alguns dos padrões conservadores da família e fez várias tatuagens na virada da década de 80 para 90, quando essa arte não era a mais aceita por aí.
Minha mãe foi (e é) uma mulher inteligente e estudiosa, então, na minha casa sempre tinham muitos livros e algum tipo de arte. Ainda que eu não me veja como uma criança leitora, hoje tenho bastante clareza do quanto a existência dessas artes ao meu entorno permitiram que eu me tornasse quem sou.
Teve época que brotaram livros de yoga em casa. Em outros momentos, publicações do hinduísmo, do budismo, dos quais eu gostava mesmo era das imagens, que me encantavam com a grande quantidade de cores e a qualidade absurda de um papel brilhante. Depois, discos de Leo Jaime, Blitz, ABBA, Caetano, Gil, Gal, que tocavam na vitrola, velhíssima, que minha mãe comprou em alguma loja de usados da vida e que fez um restauro impecável, usando lápis de olho hahaha Certo dia, ainda no início da vida adulta, chegou às minhas mãos um livro do Marquês de Sade e toda sua orgia sexual.
Obviamente que a fruta não cairia longe do pé: se minha avó quebrou padrões em relação aos seus pais e minha mãe fez o mesmo, eu segui o caminho, que me pareceu, talvez ainda inconscientemente, promissor.
Vivia na rua, na casa das amigas ou em festinhas, desde os 12 anos. Perdi a virgindade aos 15. Me perdi dos 15 aos 20, não na vida louca, mas sim, de mim, quando namorei um cara que me podava.
Terminei o namoro e me reencontrei. Virei vegetariana aos 24, depois de já ter começado a escalar, correr (inclusive uma maratona) e viajar como uma doida.
Assim como acontece até os dias de hoje, saía de casa e não avisava em detalhes onde ia, nem a hora que voltaria. No meio do caminho, o celular acabava a bateria e eu seguia a vida livre, como se não tivesse nada a perder.
Ao viajar, ficava vários dias incomunicável, o que eu ainda acho maravilhoso.
Hoje tenho um pouco de dó da minha mãe, assumo, kkk
Ainda que essa menina tenha sido a mesma com as melhores notas no colégio, que passou em uma universidade federal e aos 24 estava dando suas primeiras aulas em uma faculdade.
Gosto muito do fato de não ser uma coisa só.
De ter tido o privilégio de nascer em uma família de mulheres fortes e que não tiveram medo de correr atrás do que queriam.
Gosto de ter ganhado de presente, em algum Natal, essa ovelhinha negra de pelúcia, que representa que eu não parei no tempo. Fato qual (espero), me permita ser para outras meninas a mulher que às impulsionam, assim como as mulheres da minha família foram pra mim.


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