O privilégio do apaixonado

No encontro de estudo sobre Annie Ernaux do último sábado, falamos sobre paixão e todos os recortes que devemos observar quando falamos deste assunto. 

De maneira nada surpreendente, a maioria das pessoas presentes no local eram mulheres. Durante o momento em que cada um se apresenta, parte das pessoas fala sobre estar um vivendo uma fase da vida em que não quer se apaixonar, uma fase de olhar para si, somado à comentários sobre a dificuldade de se relacionar com homens nos tempos atuais. 

Algumas coisas me tocam nesses relatos iniciais: 

1. Por que a paixão é vista como algo tão: "credo, deus me livre me apaixonar". 

2. Por que a situação de viver uma paixão é vista como um momento de se perder de si?

3. Por que a paixão dá medo?

4. Por que eu olho com certa estranheza para essas pessoas, me perguntando como pode existir um ser humano nesse mundo que não queira experimentar tudo que uma paixão pode gerar em nossos corpos? 

Bom, destrinchamos o assunto, juntas.

Em Paixão Simples Annie relata uma paixão na qual ela está em um lugar de espera, já que é um relacionamento com um homem casado. Em O Jovem, ela é uma mulher mais velha, social e economicamente "bem sucedida", se relacionando com um homem mais jovem que ela. 

Tá aí o primeiro ponto. Como a paixão pode nos colocar num lugar de vulnerabilidade e, até mesmo, perigo, a depender das condições de classe e gênero. Conversamos sobre mulheres apaixonadas que se submetem à violências. Sobre homens "apaixonados" que cometem a violência. Que crime passional não existe, o que existe é feminicídio. 

A verdade é que tem certas pessoas que não podem se dar o direito de "perder a cabeça" por uma paixão, porque isso pode resultar em algo muito grave.

Um dos mediadores comentou sobre o desconforto ao ler O Jovem, onde a autora se coloca em uma posição de superioridade ao homem com quem se relaciona, por ter uma melhor condição financeira. O recorte de classe. Me veio uma sensação quase que de injustiça ao ouvir esse comentário, por uma certa identificação minha com a autora. Mas, ao menos pra mim, não está no lugar de superioridade. Está no lugar de saber que se um dia eu me ver num lugar de desespero por uma paixão, eu tenho onde e a quem recorrer. Eu tenho amigas, tenha uma psicóloga, tenho condição financeira para poder pagar uma viagem para afogar as mágoas, tenho um trabalho e atividades de lazer com as quais posso me distrair. 

A condição socio econômica nos permite "subir um degrau", mesmo sendo mulher. Ela não me tira da possibilidade de ser objeto de violência (seja física ou psicológica), mas me afasta disso.  

Entendo o mediador e concordo. Ninguém é menor que o outro por sua condição financeira. No entanto, também "defendo" a autora ao compreender que é bom ser mulher e, ao menos uma vez na vida, poder se ver em uma condição mais segura.

A paixão também nos coloca numa posição favorável às loucuras quando jovens: um piercing no mamilo, uma tatuagem, uma mudança de nome. Teve gente que falou sobre a vergonha das loucuras feitas quando se estava apaixonado, o que é mais uma coisa que me deixa um tanto intrigada, porque eu entendo que aquilo que somos quando estamos no momento de loucura também somos nós! Penso que acolher nossas incoerências, nossos sentimentos obscuros e nossos erros deveria ser algo natural, considerando a complexidade de um ser humano. Se ver como alguém que sente coisas boas e ruins, as vezes ao mesmo tempo, me parece ser algo digno consigo mesmo.  

Falamos como os apaixonados sofrem certo preconceito, como se a paixão não fosse um sentimento digno, real. Precisamos proteger os apaixonados, ao mesmo tempo em que precisamos nos proteger dos apaixonados (foi algo parecido com isso dito pela mediadora do dia).  

A paixão como algo intenso demais e, então, volátil demais. Um sentimento não merecedor de ser vivido: "deus me livre me apaixonar!" 

Em certo momento, alguém lembra da relação entre o termo paixão e pathos. Do grego e da filosofia, pathos sendo algo difícil de colocar nas nossas palavras. Da medicina: doença. A paixão é mal vista. É um estado no qual nos tornamos frágeis, vulneráveis, dependentes e angustiados. 

Como se angústia fosse, necessariamente, um sentimento a ser eliminado. Como se nós não fossemos, pela nossa própria natureza, seres dependentes emocional e fisicamente uns dos outros. Quanta inocência, humanos!

Aí passa o tempo, com sorte (ou não), a paixão se transforma em um amor mais tranquilo. Passam-se os anos e lá estão as pessoas, querendo reviver o relacionamento, querendo sentir aquelas borboletas no estômago outra vez. Só que elas não voltam... aqueeelas, aquelas borboletas não vivem mais. Nessa sentido, fica muito forte minha postura em relação à paixão: sabendo que ela tem prazo de validade, que não é todo mundo que pode se apaixonar e ser o objeto apaixonante, eu vou me permitir viver esse momento com toda a intensidade possível, pois esse sentimento vai acabar, e logo. Com sorte, em até 18 meses, é o que dizem os estudos. 

Ainda, a paixão tem uma outra coisa gostosinha demais: estar apaixonado é poder se ver interessante a partir do olhar do outro. Durante uma paixão nos apaixonamos por nós mesmos, em certa medida, e isso é bonito demais. 

Recorte de gênero, de classe... incoerências, incompatibilidades entre apaixonado e objeto da paixão, sentimentos ditos "indignos", como a angústia, a dor, a saudade, o medo e a obsessão. Uma sociedade com mulheres que falam muito sobre sentimentos e homens que não olham para si, sendo incapazes, então, de olhar com carinho para o outro. 

É, paixão, não é nada simples te defender! 

Depois desse encontro, ainda mais, vejo a possibilidade de viver uma paixão segura como um grande privilégio e a última frase do livro Paixão Simples nunca fez tão sentido.


É um privilégio se permitir ser vulnerável em uma paixão. É um privilégio porque é uma condição permeada por condições de classe, de gênero e pela entrega ao outro. Encontrar alguém que cuide de você em um momento de tanta vulnerabilidade e intensidade talvez seja, sim, um grande luxo nesta vida. 

Desejo que você possa viver uma paixão segura. Daquela em que você tem a capacidade de olhar pro outro e para você com todo o encantamento que uma boa paixão merece.

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