Entre crack, camisinha usada e diploma de veterinária

Pavimento térreo: um apartamento dividido em 8 cômodos, separados entre si por divisórias de madeira. Segundo relatos, "um cortiço".

No 1º pavimento, andar logo acima do "cortiço", um apartamento com os armários abertos, coisas reviradas. Gel lubricante e camisinhas espalhados na cama, uma camisinha usada no chão e sapatos de salto alto no armário. Perto da janela, uma cortina derretida e trincas na parede. No quarto menor, que fica em frente ao banheiro social, muitas garrafas de bebida alcóolica em cima e ao lado da cama. 

A escada em lance único, com fundo curvo, em uma geometria quase orgânica, vencia o pé direito baixo do prédio e nos levava ao 2º pavimento. A porta de entrada do apartamento estava arrombada. Nas paredes, mensagens de alguém que parece já ter sofrido em outros momentos da vida, mas que estava vivendo seus possíveis dias melhores. Na cozinha, uma das folhas formato A4 colada na parede dizia: "Não aceito mais viver pequeno, viver preso, eu sou livre, eu sou forte, eu sou próspero. Onde antes havia escacez, agora há fartura. Onde havia medo, agora mora a coragem."

Neste apartamento, apenas um cômodo completamente tomado pelo fogo. Me chama a atenção um móvel que me lembrou as antigas máquinas de costura. Aquela madeira boa, que parcialmente virou carvão, mas que preservava sua forma, diferentemente das tantas outras madeiras daquela construção. No chão, as molas de um colchão.

No quarto ao lado, uma pelúcia de hello kitty intacta na estante do armário embutido. Assim como no apartamento abaixo, as portas dos armários estavam abertas e o cenário indicava que alguém havia passado por ali sem nenhum cuidado, revirando tudo, sendo capaz até mesmo de quebrar a pia em louça verde esmeralda do banheiro, que combinava perfeitamente com os azulejos desenhados com tons similares. No corredor a Marilyn Monroe de um quadro masca seu chiclete rosa naturalmente, como se nada tivesse acontecido com suas paredes. 

Uma das moradoras do bloco ao lado, que não foi afetado pelo fogo, fala alto nos corredores e entra no apartamento conversando com um casal: "Olha só essas mensagens na parede! Deus existe. O apartamento deles está praticamente intacto. As palavras têm poder." 

No momento em que estou inspecionando os ambientes no andar acima (3º pavimento), entra o dono do apartamento. Um rapaz branco, provavelmente perto dos 40 anos, vestindo uma camisa social e carregando um caderno ou uma agenda na mão. No rosto, uma expressão de tristeza, de frustração.

No 4º pavimento o apartamento é de um casal (ou simplesmente de um homem e uma mulher, com uma relação que não temos conhecimento do que se trata). A porta de entrada mais destruída de todas até aqui. Ao entrar na cozinha, um armário de despensa aberto e revirado. Os quartos em estado caótico similar ao que vimos nos andares abaixo, mas com móveis e poucos objetos pessoais que sobraram com cara de que seus donos são pessoas com melhor poder aquisitivo. Termino a inspeção não sabendo o estado civil destas duas pessoas, mas sabendo que em dois meses a mulher se forma em Medicina Veterinária. Me conta com sorriso no rosto, apesar de eu conseguir sentir que por dentro ela estava com o coração em pedaços.

As fofocas afirmam que o fogo começou no térreo. Um diz: "O senhor acendeu a vela e como estava com uma perna engessada não teve tempo de agir antes do fogo se alastrar." O outro: "um velho estava usando uma vela para queimar crack". Para saber o real motivo, só se deus mandar um sinal, já que o velho não está mais entre nós. Talvez justamente por isso seja fácil culpá-lo, não é mesmo?

Da análise dos fatos concluo que a ascendência dos andares vem acompanhada de uma ascendência econômica: cortiço -> lar de uma profissional do sexo -> lar de uma família com dois filhos -> lar de um homem branco -> lar de um casal.

Não importa o quanto cada um deles tivesse mais ou menos dinheiro. O fogo afetou todo mundo. O fogo, que veio de baixo, afetou todo mundo, até mesmo os apartamentos de cobertura, que são estruturados pelos pilares do térreo que deverão ser recuperados. 

Pra você, que talvez não faça nada por quem tá abaixo, talvez esteja na hora de aprender que todos estamos mais ligados do que possamos imaginar. 



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